Bertrand Russell (1872-1970) foi um dos filósofos mais importantes do século XX. Ele ofereceu contribuições relevantes não apenas nos domínios abstratos da filosofia e da matemática, mas também no tratamento de questões sociais e morais. Em Os problemas da filosofia, com a elegância e a clareza que marcam sua escrita, Russell conduz o leitor por algumas das questões fundamentais da filosofia, com ênfase particular nos problemas epistemológicos: a natureza do mundo externo, os limites do conhecimento, a possibilidade da verdade e o valor da própria investigação filosófica. Escrito originalmente como um guia breve e acessível ao público geral, este pequeno clássico de 1912 permanece atual e instigante, mostrando que a verdadeira filosofia não envelhece quando consegue transformar a dúvida em método e o questionamento em virtude intelectual.
Russell, Bertrand. Os problemas da filosofia. Tradução: Jaimir Conte. Florianópolis: NEL/UFSC Publicações, 2025.
ISBN 978-65-989867-2-8
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Título original: The Problems of Philosophy
Sumário
Prefácio
1 Aparência e realidade
2 A existência da matéria
3 A natureza da matéria
4 Idealismo
5 Conhecimento por ´experiência direta` e conhecimento por descrição
6 Sobre a indução
7 Sobre nosso conhecimento de princípios gerais
8 Como o conhecimento a priori é possível
9 O mundo dos universais
10 Sobre nosso conhecimento dos universais
11 Sobre o conhecimento intuitivo
12 Verdade e falsidade
13 Conhecimento, erro e opinião provável
14 Os limites do conhecimento filosófico
15 O valor da filosofia
Nota bibliográfica
Apêndice
Prefácio à tradução alemã, de 1926
Índice onomástico
Nota do tradutor
Devo a Bertrand Russell o despertar de meu interesse pela filosofia. A sua História da filosofia ocidental representou para mim a descoberta de um mundo novo. Meu contato com esta obra se deu a partir de uma edição publicada pela antiga Companhia Editora Nacional, com a tradução do renomado tradutor Breno Silveira. A leitura dos quatro volumes da referida edição serviu-me de guia para a busca e descoberta de outras obras clássicas da filosofia ocidental. Graças a Bertrand Russell, passei a alimentar o desejo de estudar filosofia de forma sistemática. Esse desejo me levou a ingressar, em 1992, no curso de filosofia da UFSC. Após a conclusão da graduação, foi mais uma vez a leitura de Bertrand Russell que me guiou na elaboração de um projeto para a continuidade dos meus estudos num mestrado. A leitura da obra Os problemas da filosofia, numa edição publicada pela Arménio Amado Editora em 1959, com a tradução de António Sérgio, ajudou-me de forma decisiva a elaborar um projeto sobre a filosofia de George Berkeley, submetido em 1997 para a seleção da primeira turma do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFSC. Após concluir o mestrado e passar, na condição de professor temporário, a ministrar disciplinas filosóficas para outros cursos da UFSC, Bertrand Russell continuou sendo para mim um guia importante. Ao sentir a necessidade de justificar “O valor da filosofia” para estudantes de outras áreas, decidi realizar a tradução do último capítulo de Os problemas da filosofia, a fim de facilitar a apresentação do texto aos estudantes. Um pouco mais tarde, no início de 2005, após participar de uma palestra proferida pelo professor Newton Carneiro Affonso da Costa e ouvi-lo recomendar Os problemas da filosofia como a melhor introdução à teoria do conhecimento jamais escrita, senti-me estimulado a realizar a tradução completa do livro. No mesmo ano, um pouco antes da publicação da nova tradução portuguesa realizada por Desidério Murcho, publicada pelas Edições 70, tornei disponível a minha tradução completa deste livro em minha página acadêmica.
A versão de 2005, embora tenha sido “publicada” apenas de modo informal, sem uma revisão minuciosa, foi amplamente difundida na internet. Vinte anos depois, julguei necessário retomar essa tradução e revisá-la substancialmente. Assim, essa nova edição, que pretendia ser apenas uma versão revisada, pode ser considerada uma tradução inteiramente nova.
Na versão de 2005 citei o trecho a seguir do verbete do Oxford English Dictionary, para expor a dificuldade envolvida na tradução de “acquaintance”, e justificar a opção por “conhecimento direto” e não por conhecimento por “familiaridade” ou conhecimento por “contato”:
“1. a.1.a Personal knowledge; knowledge of a person or thing gained by intercourse or experience, which is more than mere recognition, and less than familiarity or intimacy. Const. with (of obs.). to take acquaintance of, with: to acquaint oneself with (Obs.); = mod. to make the acquaintance of, form an acquaintance with. on acquaintance, on becoming (or being) acquainted with.
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b.1.b Philos. Knowledge of a person, thing, or other entity (e.g. sense-datum, universal) by direct experience of it, as opposed to knowing facts about it. So knowledge of, by, acquaintance (opp. knowledge-about or by description).
1865 Grote Expl. Philos. i. iv. 61 If by knowledge we mean acquaintance or familiarity, kenntniss, then we know the thing in itself. 1885 W. James in Mind X. 28 An interminable acquaintance, lee ading to no knowledge-about. 1890 ― Princ. Psychol. I. viii. 221 There are two kinds of knowledge broadly and practically distinguishable: we may call them respectively knowledge of acquaintance and knowledge-about. Most languages express the distinction; thus, gnînai e„dšnai; noscere, scire; kennen, wissen; connaitre, savoir. 1905 B. Russell in Mind XIV. 479 The distinction between acquaintance and knowledge about is the distinction between the things we have presentations of, and the things we only reach by means of denoting phrases. 1911 ― in Proc. Aristot. Soc. XI. 127 We began by distinguishing two sorts of knowledge of objects, namely, knowledge by acquaintance and knowledge by description. Of these it is only the former that brings the object itself before the mind. 1954 J. A. C. Brown Soc. Psychol. Industry iii. 95 Two kinds of knowledge: ‘knowledge-about’, based on reflexion and abstract thinking, and ‘knowledge-of-acquaintance’, based on direct experience.”
Nesta nova versão, decidi traduzir “knowledge by acquaintance” ou simplesmente “acquaintance” por conhecimento por ´experiência direta`, ou ´conhecimento direto`, assim marcados, com aspas simples, em todas as ocorrências. Essa indicação eliminou a necessidade que senti, na versão anterior, de manter no interior do texto, entre colchetes, o termo acquaintance e suas variações. Considero que uma boa tradução é aquela que dá ao leitor a ilusão de que ele lê um texto original, ou aquela em que o tradutor não se faz notar ao leitor. No entanto, julguei necessário introduzir essa nota e esse breve comentário sobre a dificuldade e sutileza relativa a um dos termos chaves desta obra de Russell. Não a tenho a ilusão de que uma tradução sempre possa dizer a mesma coisa, senão apenas quase a mesma coisa.
Jaimir Conte
Florianópolis, dezembro de 2025
