O político

O político, de Azorín

Tradução de Jaimir Conte. Florianópolis: Editora da UFSC, 2015.

131 páginas – 1ª edição – 2015

ISBN: 9788532807151

Visualização parcial


Sumário

Neste clássico de 1908, Azorín retoma uma antiga tradição espanhola: a dos tratados de aconselhamento aos políticos. Na esteira de autores como Saavedra Fajardo (1584-1648), ele usa a própria experiência nos negócios públicos como fonte para suas prescrições. O texto, em vários aspectos, é atual. Mas até o que nele já está ultrapassado é precioso, pois vale como testemunho de como era a política e das mudanças pelas quais desde então ela passou.

Entrevista 1: Fábio Lopes da Silva – Editor da Editora da UFSC. Podcast 24.03.2015 – Rádio Joiville Cultural

Entrevista 2. Fábio Lopes da Silva – Editor da Editora da UFSC. Podcast 29.03.2016 – Rádio Joinville Cultural

Azorín, o inatual, por Alessandro Pinzani. Revista Subtrópicos, 20.

O Político – Páginas iniciais, Sumário e Capítulo 27 – Inovar dentro da ordem

31

Capacidade de escutar

Uma das artes mais difíceis é saber escutar. Custa muito falar bem; porém custa o mesmo tanto escutar com discrição. Entre todos os que conversam, uns não conversam, ou seja, somente eles falam; tomam a palavra e a partir do momento em que nos saúdam não a abandonam; outros, se a abandonam, nos acometem com suas frases mal apenas tenhamos articulado uma sílaba, atropelam-nos, não nos deixam acabar o conceito; finalmente, uns terceiros, se calam, estão inquietos, nervosos, sem escutar o que dizemos e atentos apenas ao que eles vão replicar quando calarmos.

É preciso ter calma e atenção; uma boa conversa é aquela que é mantida de maneira sossegada, com comedimento. Os antigos, ao que parece, sabiam conversar bem. A vida era menos agitada e febril que agora. Naqueles tempos passeava-se nas margens amenas dos rios ou nos jardins frondosos, e ia-se conversando enquanto durava o lento passeio. Caminhava-se por longos caminhos e se discorria sobre o amor e se contavam casos curiosos, enquanto que de vez em quando se tangiam delicadamente instrumentos de corda ou tecla. Os cavalheiros eram perspicazes e as damas não eram tímidas.

Quando falarmos num círculo de pessoas ou frente a frente, a sós com um amigo, deixemos que nosso interlocutor exponha seu pensamento; estejamos atentos a todas as particularidades; não façamos com nossos gestos sinal para que apresse ou encurte a narrativa. Depois, quando calar, respondamos de acordo com o manifestado, sem os saltos e as incongruências dos que não escutaram bem. Se a pessoa com quem falamos é pessoa de qualidade a quem queremos agradar, demonstremos a ela que tomamos grande gosto no que ela nos vai dizendo. Façamos com que repita algumas das passagens às quais dá mais importância; mostremos alguma ligeira incredulidade para que se inflame e se divirta com nossa estranheza; peçamos a ela que nos dê mais detalhes sobre o assunto; manipulemos, enfim, de modo que ela veja em nós um ouvinte que a compreende e se agrada com sua conversa.

Tal conduta nos proporcionará algum ensinamento, talvez ascensão em nossa carreira, e quando nenhuma destas coisas acontecer, teremos proporcionado com este inocente jogo psicológico de ironia e malícia um doce sedativo a nossos nervos cansados com o trabalho.

[páginas 87-88]